
Por Denys Sales, fundador da DVS Performance.
Imagine abrir o relatório dos anúncios e encontrar um ROAS de 5. A leitura parece positiva: para cada R$ 1 investido em mídia, foram registrados R$ 5 em receita atribuída. Mas, quando você olha a conta da empresa, o dinheiro não sobra.
Essa situação pode acontecer porque receita, retorno da mídia e lucro medem coisas diferentes. Um anúncio pode participar de muitas vendas e ainda assim vender produtos com margem insuficiente para pagar a aquisição, a entrega e a estrutura do negócio.
Quando eu analiso performance, quero entender o que as vendas deixam para a operação. O ROAS ajuda nessa leitura, mas precisa estar conectado à oferta, aos custos e aos dados comerciais. Vou explicar essa relação com um exemplo simples.
O que o ROAS mede
ROAS é a sigla para retorno sobre o investimento em publicidade. Na leitura baseada em receita, o cálculo é:
ROAS = receita atribuída aos anúncios ÷ investimento em mídia.
Se uma campanha registra R$ 20.000 em receita e recebeu R$ 4.000 de investimento, o ROAS é 5. Também pode ser apresentado como 500%. Isso significa uma relação de cinco para um entre a receita atribuída e a verba considerada.
Não significa que sobraram R$ 4 de lucro para cada R$ 1 investido. A receita ainda precisa pagar os produtos ou serviços entregues e os demais custos da operação.
Também é importante conferir o que a plataforma está chamando de valor. Se o evento recebe um valor estimado de lead, a relação exibida não representa, automaticamente, faturamento realizado. O indicador só faz sentido quando sabemos o que compõe o numerador e o denominador.
Receita, margem e lucro: três leituras diferentes
Receita mostra o valor das vendas segundo o critério adotado. Margem de contribuição mostra o que resta após custos e despesas variáveis, para ajudar a cobrir a estrutura e gerar resultado. Lucro exige considerar todos os custos e despesas pertinentes à apuração.
Para examinar a mídia, eu gosto de separar uma visão de contribuição antes do investimento em anúncios. Nela, verifico quanto as vendas deixam depois dos demais custos variáveis, reservando a mídia para uma linha separada. Essa organização evita descontar o mesmo gasto duas vezes.
Depois observo quanto a publicidade consome dessa contribuição e o que resta para a estrutura. Se a mídia já faz parte da margem apresentada no seu relatório financeiro, o cálculo precisa ser ajustado para não repetir a dedução.
Essa distinção é essencial. Uma campanha pode pagar a si mesma e ainda deixar uma contribuição insuficiente para sustentar a empresa.
Um exemplo: ROAS de 5 e resultado negativo
Considere este exemplo hipotético de uma loja. Os números servem para ensinar o raciocínio e não representam uma recomendação de custos ou margem para o seu negócio.
- Receita atribuída e confirmada: R$ 20.000.
- Custo dos produtos vendidos: R$ 12.000.
- Tributos sobre as vendas e taxas de pagamento: R$ 2.000.
- Frete subsidiado e embalagem: R$ 1.000.
- Contribuição antes da mídia: R$ 5.000, equivalente a 25% da receita.
- Investimento em mídia: R$ 4.000.
- Contribuição restante após a mídia: R$ 1.000.
O ROAS dessa campanha é 5: R$ 20.000 divididos por R$ 4.000. Porém, depois dos gastos apresentados, restam apenas R$ 1.000 para ajudar a pagar a estrutura.
Se essa operação, no exemplo simplificado, tiver ainda R$ 2.000 de custos fixos no período e nenhuma outra receita ou despesa, seu resultado será negativo em R$ 1.000. O relatório da mídia parece bom, enquanto o negócio permanece no prejuízo.
Em uma empresa com outras vendas e canais, a análise deve considerar o conjunto. Esse exemplo não autoriza atribuir automaticamente todos os custos fixos a uma campanha. Ele mostra por que o retorno da publicidade não substitui a apuração do resultado.
Como pensar no ROAS de equilíbrio da mídia
Uma referência simplificada pode ser calculada a partir da contribuição antes dos anúncios:
ROAS de equilíbrio da mídia = 1 ÷ percentual de contribuição antes da mídia, em formato decimal.
Com uma contribuição de 25%, o cálculo é 1 ÷ 0,25 = 4. Sob essas premissas, um ROAS de 4 consome toda a contribuição disponível com a publicidade. Não resta contribuição para pagar custos fixos ou gerar lucro.
Esse é um limite de equilíbrio da mídia, não o ponto de equilíbrio completo da empresa. Para criar uma meta comercial, precisamos reservar o que deve permanecer para a estrutura e para o resultado desejado.
O cálculo pressupõe que as receitas sejam comparáveis, os custos estejam completos e a margem utilizada represente as vendas analisadas. Se o mix de produtos, os descontos ou o frete mudarem, a referência também pode mudar.
Por que não existe um ROAS ideal para todo negócio
Duas lojas podem apresentar o mesmo ROAS e resultados financeiros diferentes. Uma tem maior contribuição por venda; outra depende de descontos e absorve uma parcela relevante do frete.
Mesmo dentro da mesma empresa, produtos e ofertas diferentes podem exigir metas distintas. Uma campanha que vende itens de margem menor pode precisar de uma relação entre receita e mídia mais alta para deixar contribuição suficiente.
Por isso, eu não uso o ROAS de outra empresa como meta automática. Analiso o produto vendido, o ticket, os custos e o papel da campanha. Um número isolado pode esconder um mix de vendas pouco saudável.
Descontos, frete e taxas podem mudar o resultado
Uma promoção pode aumentar os pedidos e reduzir o que sobra por venda. A receita cresce, mas parte da contribuição desaparece no desconto. Se o negócio ainda oferece frete subsidiado e parcela o pagamento, a operação precisa absorver esses efeitos.
Eu verifico especialmente:
- Custo real do produto ou da prestação do serviço: coerente com o que foi entregue.
- Descontos: já refletidos na receita usada para o cálculo.
- Tributos e taxas: conforme a realidade da operação, sem usar um percentual genérico como regra.
- Frete, embalagem e comissões: quando fazem parte do custo da venda.
- Cancelamentos, devoluções e estornos: que podem alterar receita e custos.
- Encargos incidentes sobre a mídia: quando existirem, explicitando se estão incluídos na verba analisada.
Também separo os demais custos do marketing, como gestão e ferramentas, conforme o modelo de análise. Se o relatório usa um custo de publicidade mais abrangente que a verba da plataforma, ele deve deixar isso claro para permitir comparações consistentes.
Aumentar a verba pode elevar as vendas e reduzir a contribuição
Quando uma campanha funciona em determinado nível de investimento, não podemos assumir que o mesmo retorno será mantido ao aumentar a verba. O custo de alcançar mais pessoas, o perfil das novas oportunidades e a capacidade de atendimento podem mudar.
Eu observo também o resultado do investimento adicional. A média histórica pode continuar boa enquanto a nova parcela de verba traz vendas com custo elevado.
A pergunta é: o dinheiro a mais está gerando contribuição suficiente depois dos custos envolvidos? Essa leitura exige observar um período adequado, considerar o tempo até a compra e evitar conclusões com poucas vendas.
Se o crescimento aumenta cancelamentos, atrasos ou gastos operacionais, esses efeitos também entram na análise. Escalar a mídia é uma decisão que precisa conversar com a capacidade de entregar.
Receita atribuída não é a mesma coisa que receita total do negócio
As plataformas atribuem resultados conforme configurações e regras de mensuração. Uma mesma venda pode aparecer em mais de um ambiente. Por isso, eu não somo os valores de todos os gerenciadores como se fossem receitas independentes.
Eu comparo os relatórios com pedidos, pagamentos e registros comerciais. Também verifico se o evento de compra está duplicado e se o valor enviado representa corretamente a transação.
Para entender essa organização, leia Como saber quais anúncios realmente trazem clientes?. Uma conta correta sobre dados inconsistentes ainda pode levar à decisão errada.
E nas clínicas e negócios que vendem pelo atendimento?
Se o anúncio gera contatos e a contratação acontece depois, o empresário precisa conectar a origem à venda. Um formulário enviado ou uma conversa iniciada não tem, por si só, o mesmo significado financeiro que uma contratação concluída.
Eu acompanho contatos efetivos, qualificação, agendamentos, comparecimento e vendas, conforme o processo. Depois avalio receita e custos do serviço prestado. Um valor estimado atribuído a cada lead pode ajudar em uma estratégia de mensuração, mas não deve ser apresentado como dinheiro que entrou no caixa.
Para quem vende serviços, o tempo da equipe, os insumos e a capacidade disponível também influenciam o resultado. Ter a agenda movimentada não responde, sozinho, quanto essa agenda contribui para o negócio.
Recompra e fluxo de caixa também merecem atenção
Um cliente pode voltar e gerar novas vendas. Isso pode mudar a leitura do custo de aquisição ao longo do relacionamento, desde que a recompra e sua contribuição sejam acompanhadas com dados. Eu não conto com uma receita futura apenas porque ela parece possível.
Há ainda uma diferença entre lucro e disponibilidade de caixa. A loja pode pagar a mídia e os fornecedores antes de receber todas as parcelas das vendas. Mesmo uma operação com resultado positivo pode enfrentar pressão financeira nesse intervalo.
Por isso, observo prazos de recebimento, pagamentos, estoque e capital necessário para sustentar o crescimento. O ROAS não mostra esse calendário.
Como o Método ETAPAS conecta mídia e realidade financeira
No Método ETAPAS, a visão comercial ajuda a orientar o investimento:
- Entender: conhecer oferta, margem, custos e capacidade da operação.
- Traçar: definir objetivos que façam sentido para o negócio.
- Analisar: conferir campanhas, mensuração e resultado das vendas.
- Priorizar: identificar se a trava está na aquisição, no mix, na oferta ou em outra etapa.
- Agir: executar os ajustes das frentes contratadas e acompanhar seus efeitos.
- Sustentar: revisar o investimento conforme os dados e as condições comerciais evoluem.
Não se trata de abandonar o ROAS. Trata-se de interpretá-lo junto com os indicadores que explicam a saúde do negócio.
O que eu conferiria antes de comemorar um ROAS alto
- A receita atribuída corresponde a vendas válidas?
- Os eventos e valores estão corretos e sem duplicidade?
- Quanto as vendas deixam antes e depois da mídia?
- Descontos, frete, taxas e tributos estão considerados?
- Existe contribuição suficiente para sustentar a estrutura?
- O aumento da verba mantém um resultado comercial adequado?
- O caixa consegue acompanhar os prazos dessa operação?
Um bom resultado de performance precisa fazer sentido depois que a venda acontece. É essa conexão entre investimento, dados e negócio que orienta meu trabalho na DVS Performance.
Se seus anúncios mostram retorno, mas você não consegue entender o que sobra, conte sobre o seu cenário. Podemos identificar qual análise ou apoio faz sentido para organizar as próximas decisões.
Assuntos: Educativo